quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Enredo Emocionante

Noite de Natal, estão todos fartos.

Se eu não insistir vão deitar sem escovar os dentes.

Já expliquei tudo o possível sobre o nascimento de Jesus.

Tento fazê-los não se ligar tanto nas luzes e na árvore de Natal enorme.

Vou eu de novo.

Permito que minha emoção conduza minha imaginação e entro no enredo. Convido – os a irem comigo, eles aceitam.

Maria assustada. Através do medo já imaginando as pedras batendo em seu corpo.

José assustado. Apaixonado e sem saber o que fazer.

Inveja, desejo de poder, ganância.

Esconderijos, fuga!!!!

Lama, poeira, soldados.

Deserto, camelos, garrafa de barro.

Jerusalém!Egito!

Maria, José, fome, pés sujos.

Cocô de vaca, palha, manjedoura e nenhum amigo com o casal.

Eis o salvador da humanidade queridos.

Deus se revela a humanidade através de um bebê Galileu.

Alegrem-se crianças! Jesus nasceu!

Davi, não precisa gritar tanto.

Sofia, não precisa também censurar seu irmão desse jeito.

Boa noite crianças. Peçam um presente a Ele esta noite.

Silêncio, conseguem ouvir seu choro? Mais um pouco de silêncio, se vocês se aquietarem vão ouvir.

Agora ele parou. Maria deve ter dado a ele o peito.

Ah, ali, José chegou com comida. Está perto do jumentinho.

Vou sair da sala, ai vocês pedem um presente ao bebê.

Ih, começou de novo. Estão ouvindo o choro?

Hoje vocês dormem aqui debaixo da árvore.

Boa noite!

domingo, 13 de dezembro de 2009

Verme

Tens noção de como és feio?
Seu corpo é de um marrom sem brilho, todo listado, parece um pedaço de madeira.
Você tem vários pés, todos brancos, e conforme você se locomove eles parecem uma cortina.
O que é isso em seu rosto? bigodes? Você os utiliza para caminhar. Apare-os! São muito grandes.
Estais atrapalhando minha leitura, não quero esmagar-te.
Não se aproxime, vai embora! Sua falta de dotes físicos é repugnante.

domingo, 15 de novembro de 2009

Ruptura

"Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém,
pelas gazelas e cervas do campo,
que não acordeis,
nem desperteis o amor,
até que este o queira."

Cântico dos Cânticos 2.7

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Relacionamento Perfeito Lya Luft

O assunto pode ser dramático ou engraçado, tão humano e tão difícil de entender.
A mim, sempre buscando explicações e significados porque tão pouco entendo, me ocorre falar ou escrever exatamente sobre aquilo que menos sei. Trabalho interminável, espécie de suplício de Tântalo: o pobre todo dia empurrando montanha acima uma grande pedra que voltava a rolar pela encosta, a fim de que o torturado recomeçasse mais uma vez.
Querer alcançar o significado das coisas, da vida, das gentes, de seus relacionamentos e desencontros, é um pouco assim.
Seguidamente me indagam – ou tento imaginar – o que seria um relacionamento perfeito. Eu ia escrever “casamento”, mas preferi a outra palavra, porque ela não tem nada a ver com cartório e burocracia, opressão ou coerção social e familiar: tem a ver com querer se ligar a alguém, e querer continuar ligado.
Cada dia, ao acordar, fazer de novo a escolha: eu quero mesmo é você comigo.
Mas “perfeito” é uma palavra tola: perfeição, só no céu de todas as utopias. Aqui, nesta nossa terra nada utópica, perfeição me pareceria um pouco entediante: como, nada a reclamar, tudo assim direitinho?
Olho pela janela e bocejo: muito sem graça, a tal perfeição. O céu com anjos tocando harpa pelo tempo sem tempo me deixava pasmada já na infância. Nada mais? Nem uma brincadeira proibida, um escorregão nas nuvens, uma risada na hora do sagrado silêncio... nem uma transgressãozinha na ordem celestial?
Minha alma indisciplinada não encontraria alimento nem estímulo, e ia-se desfazer em fiapo de nuvem embaixo de algum armário onde se guardassem os relâmpagos e os trovões, e todas as duras sentenças.
Então, relacionamento perfeito, nem pensar.
Mas uma ligação de cumplicidade e ternura, de sensualidade e mistério, ah, essa eu acho que pode existir. Como todos os contratos (não falo dos de papel mas de corpo, coração e mente), esse precisa ser renovado de vez em quando: a gente tira o contrato da gaveta da alma, e discute. Briga talvez, chora, reclama, mas ainda ama, ainda deseja. Ainda quer o abraço, o passo no corredor, o corpo na cama, o olhar atento por cima da xícara de café... quer até a desorganização e a ruptura, para depois de novo o que é bom se reconstruir.
Que seja vital: isso me parece uma boa parceria. Que seja dinâmica, seja lá o que isso significa em cada caso. Pelo menos, não acomodada; mas muito aconchegante.
Que seja sensual e amiga, essa ligação: se não gosto do outro como ser humano, com seus defeitos, sua generosidade e egoísmo, força e fragilidade, se não o quereria como amigo... como então, mesmo com tempero do desejo, posso me relacionar com ele para uma vida a dois?
O tema é quase infinito: pois cada caso é um caso, assim como cada casal é um casal, e cada fase da vida do indivíduo ou dos dois é diferente.
O bom é quando essa constante transformação se faz para maior cumplicidade, e não mais distanciamento.
Que um relacionamento não seja prisão; que não seja enfermaria nem muleta; mas que seja vida, crescimento (turbulências eventuais incluídas).
Que seja libertação e ajuda mútua; não fiscalização e condenação, a sentença pronunciada numa frase gélida ou num olhar acusador, ar de reprovação ou lamúria explícita.
Que seja cumplicidade, porque a vida já é difícil sem afetos. O som dos passos no corredor pode ser um conforto inacreditável, o corpo ao lado na cama uma âncora para a alma aflita. O entendimento recíproco é um oásis no isolamento desta nossa vida pressionada por tempo, dinheiro, regras, mil solicitações de família, trabalho, grupo social, realidade do mundo.
Que seja presença e companhia, o relacionamento bom: pois a solidão é um campo demasiado vasto para ser atravessado a sós.
LUFT, Lya. In: Pensar é transgredir.
O que encontrei de mais próximo ao que acredito ser não o ideal, mas o necessário para uma vida a dois.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O Dia Legal de um Jovem Camponês Judeu

Quero falar de um dia importante na vida de um jovem camponês judeu. Seu nome é Yeshua. Seu pai se chama José e sua mãe Maria. Ele tem irmãos, mas não sei ao certo quantos são nem seus nomes.

Yeshua está em uma festa, em um casamento. São de pessoas conhecidas suas, moram em sua aldeia. Yeshua está de pé com um grupo de rapazes, são seus amigos. Alguns cresceram com ele, outros ele conheceu ali na festa mesmo. São todos em sua maioria gente de bem. Conversam sobre coisas triviais, observam as pessoas, comem e bebem.

Yeshua gosta de crianças. Gosta da maneira enérgica como correm e dos seus sorrisos e lágrimas. É que tanto um como o outro são bem sinceros. Os adultos não são tão sinceros assim com suas emoções, com seu próprio coração. Yeshua vai ao encontro delas, pergunta seus nomes e de quem são filhos. Em poucos minutos está sentado no chão conhecendo alguns dos sonhos daquelas crianças. Ele gosta da maneira como falam do mundo, de como acham tudo grande, da esperança que depositam no futuro. Ele quase consegue sentir a palpitação de seus coraçãozinhos quando falam da grandeza do mundo e de tudo que querem ainda fazer e conhecer. Ele se pergunta: “porque os adultos não são assim?”
As crianças o chamam pra brincadeira. Ele aceita. É algo como o que conhecemos como pic hoje em dia. Seus amigos não entendem como Yeshua consegue passar tanto tempo com as crianças, conversando com elas, o acham meio maluco: com tanta gente pra conversar, tantas moças para admirar, tanto vinho para beber, ele fica conversando e sai para correr com crianças.
Yeshua corre por uns minutos, mas pede para sair da brincadeira, afinal, já está com trinta. Não os consegue acompanhar em tudo.

Yeshua gosta de observar as pessoas, gosta muito mesmo. Ele olha para os diferentes grupos que estão na festa. Vê uma moça que está com sua família. Ela parece acanhada, meio deslocada. Yeshua pensa bastante, mas decide: vai em direção a sua família e a chama para dançar. Nem olha para o rosto de seu pai evitando encontrar um possível olhar de desaprovação. Apenas pega na mão da moça e inclina a cabeça na direção de seus pais em sinal de respeito. Puxa a moça pra roda de dança. As danças judaicas são muito alegres. Ele percebe que a moça ainda não está se sentindo muito a vontade, mas depois de uns vinte minutos de palmas, giros e pulos ele vê no seu rosto um sorriso. Se sente feliz então. Sai da dança.

Yeshua fica um tempo sozinho. Pensa. Observa. Vê uma família judia sentada conversando. São amigos seus, o viram crescer, são parte de sua tribo. Ele se senta com eles. Começa a conversar com a mais velha da família. Aproxima-se bem dela pra poder escutá-la e para que ela o escute. Ela está bem velha. Ela tem dificuldade para falar. Ele a escuta, e escuta, e escuta. Ele mais escuta que fala. Ele aprendeu muito nessa conversa. Conversaram sobre coisas da vida: os problemas da Palestina, o amor, a pobreza que os cercava, questões de família, questões da aldeia, a morte e por ai vai.

O vinho da festa acabou. Foi um desespero só. Seria quase um escândalo se todos tomassem conhecimento. Com uma só palavra ele consegue arrumar vinho. Tudo volta ao normal. Engraçado que os anos passam e ele continua assim, quando o pedem, ele põe o vinho que falta em nossa vida: alegria, paciência, serenidade, compaixão. É só pedir.

A festa acabou. Foi uma boa festa. A partir daí ele não parou. Saiu de casa, não levou nada consigo. Conseguiu companhia: alguns caras que eram tão estranhos como ele. Estes também deixaram suas casas e não levaram nada. Então, começou uma revolução, a maior revolução de todas. A revolução ágape, a revolução do amor. Ricos e pobres, donas de casa e prostitutas, crianças e velhos, casados e solteiros, judeus e não judeus. Todos, enfim, todos eram seu alvo. Ele queria que o ágape alcançasse a todos e ainda quer.

Eu queria ter estado naquela festa. Queria que ele tivesse me chamado pra dançar. Queria em algum momento de seu ministério ter parado pra conversar com ele bebendo uma caneca de vinho. Queria ter tido a oportunidade de ver como era seu sorriso. Quem sabe poderia eu ter sido uma das pessoas privilegiadas que o tocaram. Imagine só: Yeshua me abençoando e me dando um abraço. Queria saber como era seu tom de voz. Talvez eu não fosse uma de suas discípulas mais próximas, mas me sentiria feliz em estar no meio da multidão. Queria poder conversar com ele sobre as coisas da vida, como aquela velha. Só de pensar nessas coisas algo tão forte toma conta do meu peito, que enquanto estou aqui digitando essas palavras meus olhos lacrimejam, meu coração se aperta. Mas me pergunto também se teria dado importância, se não seria uma das pessoas que o insultaram ou simplesmente o ignoraram. Olhar para o passado com os olhos e sentimentos do presente é muito fácil. Mas prefiro crer que não seria assim comigo.

Este dia foi muito importante pra ele, foi um dia bem legal o dia desse casamento. Ainda terei muitos dias legais ao lado de Jesus.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Lua de Mel

Quero todas as luzes apagadas, menos a do abajur.
A temperatura está amena, deixe a janela aberta.
Nossa roupa de cama tem cheiro de baunilha.
Você trocou de xampu, não foi?
Que bom que hoje estais comportado, não vou precisar pedir tanto para que se controle.
Nada de uis e ais.
Não faço questão de champagne, um pouco de vinho barato basta.
Me canta uma canção?
Sua barba faz cócegas em minha testa, tudo bem.
As famosas borboletas, de nosso primeiro beijo, saem do estômago voando pelo corpo inteiro.
Sinto como nunca a firmeza de suas mãos.
Calma!
Você tem uma vida inteira para sentir de perto meu cheiro e saborear meus seios.
Pois nesta noite o prazer que quero ter é o de dormir quieta e segura em seus braços, deles recebendo calor.
Você pode apagar o abajur, por favor?

Amanhã tudo vai amanhacer com cheiro de terra molhada, sei que vai.

Aceito Sugestões

Quero para este momento um conceito, uma palavra.
Em meio a uma imensa tempestade vejo um ponto de paz, eis sua imagem. É em torno dela própria que surge o vendaval.
O medo e a raiva de agora me lembram os medos e raivas de outrora.
Estais vivo. Mais vivo do que nunca dentro de mim.
Pode parecer frio, mas em outras outroras a fria morte foi luz.
Desejo neste momento frieza, praticidade, exatidão. Oh quão desejosa matemática!
Mas não. Algum motivo da parte Dele deve haver para ter eu saído assim, puro impulso.
Estais vivo de todas as maneiras possíveis. Meu medo e raiva são testemunhas oculares dos movimentos que você faz dentro de mim.
Podias morrer!
Que hoje não seja outrora! Que importa o futuro? Que hoje seja hoje!
Você está morrendo, morrendo. Esforço-me para te ressuscitar. Mas não sei se queres ainda viver dentro de mim.
És inquietude, causador de toda tempestade. Traga-me sua paz!
Não! Por favor, não morra.
Preciso de um conceito, de uma palavra.